Por um olhar atento à saúde infantil, aos jovens vulneráveis e ao debate internacional
JeT
(Texto baseado no Discurso de Mia Hughes, diretora canadense da Genspect, no evento Verdades Fundamentais de Jason Lavigne em Red Deer, Alberta)
Nos últimos anos, o debate em redor da chamada “medicina de género pediátrica” e dos “cuidados de afirmação de género” em crianças, adolescentes e jovens vulneráveis tornou-se uma das matérias mais complexas e sensíveis da saúde pública internacional.
Enquanto países europeus como o Reino Unido (após o relatório Cass Review), a Suécia, a Finlândia e a Noruega têm vindo a travar de forma drástica as intervenções médicas (como bloqueadores da puberdade e hormonas cruzadas) em menores — reorientando a prioridade para o acompanhamento psicológico —, em Portugal o tema continua rodeado de tabus e de um enquadramento legislativo que levanta sérias preocupações a especialistas, famílias e profissionais de saúde mental.
Com a promulgação e atualização da legislação sobre autodeterminação de género nas escolas e no Serviço Nacional de Saúde (SNS), importa olhar para os alertas que chegam de investigadoras internacionais, como Mia Hughes (diretora canadiana da Genspect e coautora da análise aos WPATH Files), que sintetizou o problema em três verdades fundamentais que a sociedade não pode continuar a ignorar.
1. Não existem “crianças transgénero”: O perigo de confundir estereótipos com identidade
A premissa fundamental de que uma criança ou jovem pode “nascer no corpo errado” desrespeita décadas de investigação científica consolidada sobre o desenvolvimento infantil e juvenil. Uma criança em idade pré-escolar ou escolar compreende o mundo através do pensamento mágico e da imaginação.
Aceitar a tese da “criança trans” exige aceitar três premissas cientificamente frágeis:
- Que uma criança tem uma identidade estável e imutável num momento em que nem sequer os adultos a têm totalmente consolidada.
- Que a recusa de estereótipos de género (um rapaz que gosta de brincar com bonecas ou uma rapariga tom-boy que rejeita vestidos) significa que a criança pertence biologicamente ao sexo oposto.
- Que essa perceção subjetiva deve sobrepor-se à realidade biológica do corpo.
Quando adultos e instituições de ensino — impulsionados por orientações escolares — validam precocemente essas confusões, transformam uma fase natural de exploração num processo de rotulagem social. Esta rotulagem é particularmente prejudicial para jovens neurodivergentes (como aqueles no espetro do autismo) ou com dificuldades de integração social, que frequentemente interpretam rigidamente os papéis de género e procuram respostas simples para o seu sentimento de desajuste. O grande problema surge quando a ilusão embate na biologia real: a chegada da puberdade.
2. Nenhum adolescente tem capacidade cognitiva para dar um consentimento verdadeiramente informado
Quando o desconforto da puberdade se instala, a resposta da medicina de afirmação passa pela introdução de disruptores endócrinos (bloqueadores da puberdade) e, posteriormente, de hormonas do sexo oposto. Trata-se de intervenções profundas e muitas vezes irreversíveis, que afetam a saúde óssea, a fertilidade futura, a função sexual e a integridade física.
Será que um adolescente de 13, 14 ou 15 anos — muitas vezes a enfrentar crises profundas de ansiedade, depressão ou traumas não resolvidos — tem maturação cerebral suficiente para compreender o que significa renunciar para sempre à fertilidade ou à capacidade de ter uma vida sexual plena na idade adulta?
A resposta científica e clínica é não. Nos próprios documentos internos da WPATH (WPATH Files), endocrinologistas pediátricos reconhecem abertamente que discutir a perda de fertilidade com adolescentes é “como falar para uma parede” e que o arrependimento na idade adulta é real.
Adolescentes vulneráveis, focados em aliviar uma dor psicológica imediata, são incapazes de ponderar os custos biológicos de longo prazo. Assim como em Portugal a lei impede menores de realizar cirurgias estéticas irreversíveis, fazer tatuagens sem consentimento parental ou tomar decisões financeiras vincativas, é incoerente e perigoso assumir que um jovem fragilizado tem maturidade para consentir com procedimentos médicos que condicionarão todo o seu futuro biológico.
3. Ideias e comportamentos são contagiosos: O contágio social na era digital e o impacto nos mais vulneráveis
Historicamente, a disforia de género afetava quase exclusivamente rapazes na infância e era uma condição extremamente rara. Contudo, a partir de 2014, as clínicas de género em todo o mundo ocidental viram as suas listas de espera explodir com um perfil completamente novo: raparigas adolescentes e jovens vulneráveis sem qualquer histórico prévio na infância.
Este fenómeno não é isolado. A medicina conhece bem o conceito de doença sociogénica em massa:
- Nos anos 80 e 90, assistiu-se a um contágio de bulimia impulsionado pela cobertura mediática e revistas jovens.
- Mais recentemente, surtos de tiques involuntários (semelhantes à Síndrome de Tourette) espalharam-se entre raparigas no TikTok após a viralização de vídeos de criadores de conteúdo.
Na era dos smartphones, a mensagem “se não gostas do teu corpo, se sentes ansiedade ou se não te encaixas, podes estar no corpo errado” espalhou-se de forma avassaladora. Esta narrativa oferece uma explicação rápida e sedutora para jovens em situação de grande vulnerabilidade emocional. Em vez de se diagnosticarem e tratarem as causas primárias — como o autismo, a ansiedade, a depressão, a dismorfia corporal ou históricos de trauma —, muitos sistemas de saúde precipitaram-se a “afirmar” o sintoma e a prescrever tratamentos médicos definitivos, deixando o sofrimento psicológico subjacente sem resposta clínica adequada.
E em Portugal? Onde estamos e para onde devemos ir?
Enquanto o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) fechou a controversa clínica de Tavistock e restringiu o uso de bloqueadores de puberdade apenas a ensaios clínicos rigorosos, Portugal ainda caminha com lentidão no debate crítico.
É urgente que a comunidade médica portuguesa, as ordens profissionais (Ordem dos Médicos e Ordem dos Psicólogos) e os decisores políticos façam uma pausa de reflexão.
- Superar a cegueira ideológica: Boas intenções não garantem a ausência de dano. Na história da medicina, tratamentos como a talidomida ou as lobotomias foram aplicados por médicos convictos de que estavam a ajudar.
- Priorizar a saúde mental e a avaliação abrangente: Antes de submeter jovens e adolescentes vulneráveis a procedimentos irreversíveis, é imperativo reforçar o apoio psicológico e psiquiátrico, promovendo o diagnóstico diferencial rigoroso e a aceitação do próprio corpo durante a conturbada fase do crescimento.
- Proteger os jovens mais frágeis: Seguir a prudência demonstrada pelos pioneiros da medicina europeia, garantindo que o SNS e as escolas portuguesas protegem as crianças e os jovens vulneráveis em vez de os expor a riscos e decisões irreversíveis.
Reconhecer as verdades fundamentais não é uma questão de intolerância; é um ato de responsabilidade, compaixão e rigor científico no cuidado das gerações mais novas e daqueles que se encontram em maior fragilidade.êncio — ou pior, a negação — pode nos levar a repetir erros que já jurámos nunca mais cometer.




