Há momentos em que uma sociedade precisa parar e encarar a si mesma com honestidade — mesmo quando a verdade é desconfortável. Estamos vivendo um desses momentos.
O que muitas vezes parece começar como um simples ato administrativo — a alteração de nome e género no cartão de cidadão — pode, na realidade, ser o primeiro passo de um caminho muito mais profundo e irreversível. Um caminho que conduz, gradualmente, à medicalização do corpo e da identidade. Por isso, a própria base legal que permite esse início precisa ser questionada. Leis não são neutras quando abrem portas para processos com consequências tão sérias.
Quando alguém sente a necessidade de medicalizar a própria identidade, isso não pode ser suavizado com palavras reconfortantes ou embalado como progresso. Trata-se, na sua essência, de uma forma extrema de modificação corporal. E precisamos ter a coragem de dizer: isso pode ser uma forma de automutilação — não cuidado de saúde.
Cuidado de saúde existe para curar, aliviar, restaurar. Não para remover, alterar irreversivelmente ou comprometer funções saudáveis do corpo sem uma base médica sólida. Transformar hospitais — espaços de confiança, ciência e proteção — em locais onde intervenções irreversíveis são realizadas sob a bandeira da identidade é confundir compaixão com permissividade.
Pessoas com Distúrbios da Diferenciação Sexual merecem, sem dúvida, todo o apoio médico necessário. Mas fora desse contexto, é essencial que haja clareza: essas intervenções não são neutras. Elas carregam riscos profundos, muitas vezes irreversíveis — físicos, psicológicos e existenciais.
O arrependimento não é uma abstração distante. Ele pode ser devastador. Procedimentos como feminização facial ou cirurgias genitais não são simples “ajustes”; são mudanças permanentes que podem deixar marcas impossíveis de apagar. Para alguns, o peso dessas decisões pode se tornar insuportável.
E, ainda assim, estamos assistindo a um movimento preocupante: a responsabilidade médica sendo diluída sob o conceito de “consentimento informado”. Como se a simples assinatura de um documento pudesse transferir o peso ético e clínico de decisões tão graves. Mas um sistema de saúde verdadeiramente compassivo não abandona o paciente à própria condução. Ele orienta, questiona, protege.
Isso exige também algo fundamental: liberdade clínica. Psicólogos e médicos precisam ter espaço real para estudar, investigar e diagnosticar com rigor — sem pressões ideológicas, sem medo de represálias, sem limitações impostas por enquadramentos legais que condicionem previamente as conclusões. Quando a ciência é silenciada ou direcionada, o paciente deixa de ser protegido e passa a ser exposto.
A história da medicina já nos ensinou, repetidas vezes, o perigo de confundir convicção com evidência.
Egas Moniz foi premiado com o Nobel por desenvolver a lobotomia — um procedimento celebrado como revolucionário. Mais tarde, Walter Freeman levou essa prática a extremos brutais, popularizando intervenções que hoje nos parecem impensáveis. Na época, muitos acreditavam estar ajudando. Pacientes e famílias relatavam melhorias. Havia fé — mas faltava compreensão.
Décadas depois, veio a verdade: os danos eram profundos, duradouros e, muitas vezes, irreparáveis. A prática foi abandonada, mas tarde demais para milhares de vidas marcadas.
A lição é clara — e urgente.
Relatos pessoais não substituem evidência. Convicções não são provas. Boas intenções não garantem bons resultados.
A medicina deve ser guiada por aquilo que resiste ao tempo: dados sólidos, resultados consistentes, prudência ética.
E quando olhamos para as intervenções médicas relacionadas à transição, precisamos fazer a pergunta mais difícil de todas: os resultados realmente justificam os riscos?
Se a resposta não for clara, então o silêncio — ou pior, a negação — pode nos levar a repetir erros que já jurámos nunca mais cometer.