{"id":3543,"date":"2025-05-20T21:45:11","date_gmt":"2025-05-20T21:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/juventudeemtransicao.pt\/?p=3543"},"modified":"2025-05-20T21:54:02","modified_gmt":"2025-05-20T21:54:02","slug":"tres-corpos-em-busca-da-psicanalise-o-feminino-ameacado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/juventudeemtransicao.pt\/index.php\/2025\/05\/20\/tres-corpos-em-busca-da-psicanalise-o-feminino-ameacado\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas corpos em busca da psican\u00e1lise: o feminino amea\u00e7ado"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Rita Marta<br>Sociedade Portuguesa de Psican\u00e1lise<br>Mensana \u2013 Sa\u00fade Mental (www.mensana-mentalhealth.com)<\/h5>\n\n\n\n<p>Resumo<\/p>\n\n\n\n<p>Em junho de 2024, um grupo de especialistas de todo o mundo \u2014 psicanalistas, psiquiatras, geneticistas, bi\u00f3logos, fil\u00f3sofos, soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos \u2014 reuniu-se em Paris para discutir e encontrar solu\u00e7\u00f5es urgentes para o problema do crescimento exponencial e global da disforia de g\u00e9nero entre adolescentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Quais s\u00e3o as transforma\u00e7\u00f5es culturais e sociais respons\u00e1veis \u200b\u200bpor este fen\u00f3meno, que conduz a solu\u00e7\u00f5es imediatas e literais, sem qualquer questionamento, atrav\u00e9s de bloqueadores da puberdade ou de cirurgias de mudan\u00e7a de sexo, com riscos m\u00e9dicos e psicol\u00f3gicos significativos?<\/p>\n\n\n\n<p>Pode a psican\u00e1lise compreender e transformar esta &#8220;loucura colectiva&#8221;, onde o desejo \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o, o subjectivo uma realidade, e o proibido \u00e9 destru\u00eddo &#8211; &#8220;\u00c9 proibido proibir&#8221;, &#8220;\u00c9 proibido compreender&#8221; &#8211; e onde parece ter desaparecido a separa\u00e7\u00e3o entre manifesto e latente? Estar\u00e1 Freud desajustado em &#8220;O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; quando escreve: &#8220;deve o indiv\u00edduo gerir o conflito entre os seus impulsos individuais e as exig\u00eancias da sociedade&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo desta obra, a autora viajar\u00e1 no tempo para compreender o lugar do corpo no sintoma \u2013 desde o corpo simb\u00f3lico (sexual e proibido) presente na histeria, ao corpo literal (omnipotente e concreto) na disforia de g\u00e9nero \u2013 relacionando-o com as mudan\u00e7as socioculturais globais.<\/p>\n\n\n\n<p>Iniciarei a minha apresenta\u00e7\u00e3o com tr\u00eas express\u00f5es que sintetizam as ideias que irei desenvolver ao longo deste documento:<\/p>\n\n\n\n<p>a) Um psicanalista n\u00e3o pode deixar de o ser: a identidade psicanal\u00edtica vai muito para al\u00e9m da nossa atividade cl\u00ednica; Muda radicalmente a forma como vemos o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>b) \u201cA doen\u00e7a psiqui\u00e1trica ocorre na fronteira entre o indiv\u00edduo e a sociedade, e as doen\u00e7as evoluem ao longo dos anos\u201d (David Bell, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>c) &#8220;Se se sente mal com o seu corpo (sexual), \u00e9 porque \u00e9 do g\u00e9nero errado&#8221; (Ideologia de G\u00e9nero)<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XXI, a sociedade vive um paradoxo: prioriza a liberdade\/vontade do sujeito, onde o corpo e a identidade se tornam descart\u00e1veis \u200b\u200b\u200b\u200be modific\u00e1veis \u200b\u200b\u200b\u200b\u2014 seja a cor do cabelo, dos seios ou das rugas, ou ainda a escolha do sexo e da cor dos olhos do beb\u00e9 nas novas tecnologias reprodutivas, seja o sexo biol\u00f3gico \u2014, o que contrasta fortemente com a aus\u00eancia de liberdade de pensamento que domina a ideologia de g\u00e9nero.<\/p>\n\n\n\n<p>Como cheg\u00e1mos aqui?<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Dora<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>A minha primeira paciente psicanal\u00edtica, a quem chamei Dora porque parecia ter vindo directamente do s\u00e9culo XIX e poderia ter sido paciente de Freud, passou os dois primeiros anos em sil\u00eancio no div\u00e3, resistindo \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o do objecto materno com a analista terceira e \u00e0 penetra\u00e7\u00e3o das suas interpreta\u00e7\u00f5es. Tal como a Dora de Freud sofria de afonia, a minha Dora faltava \u00e0s sess\u00f5es anal\u00edticas por causa de infec\u00e7\u00f5es recorrentes da garganta, at\u00e9 que finalmente me revelou o seu sintoma fundamental: a dispareunia (dor sexual, com o namorado), a proibi\u00e7\u00e3o da sexualidade e a confus\u00e3o oral-genital pr\u00f3pria da histeria.<\/p>\n\n\n\n<p>O que aconteceu ao corpo proibido e simb\u00f3lico da histeria?<\/p>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9 o lugar simb\u00f3lico do corpo no s\u00e9culo XXI?<\/p>\n\n\n\n<ol start=\"2\" class=\"wp-block-list\">\n<li>F\u00e9nix<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Vinte anos depois, uma jovem de vinte e poucos anos entra no meu escrit\u00f3rio, de cabelo curto e voz fraca, escondida atr\u00e1s de uma t-shirt comprida que lhe chega aos joelhos. Phoenix, o nome sem g\u00e9nero que Filipa criou para si pr\u00f3pria, vem ter comigo em busca de uma declara\u00e7\u00e3o para confirmar a sua identidade transg\u00e9nero: N\u00e3o gosto do meu corpo porque nasci no corpo errado, n\u00e3o sou mulher, a minha identidade de g\u00e9nero \u00e9 masculina, sou transg\u00e9nero, preciso de mudar o meu corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em crian\u00e7a, amava o seu corpo de menina, imaginando o dia em que usaria um biqu\u00edni, mas quando este se tornou de facto um corpo de mulher, com o in\u00edcio da menarca e das formas femininas, sentiu um grande desconforto, uma sensa\u00e7\u00e3o de estranheza e uma rejei\u00e7\u00e3o deste corpo feminino.<\/p>\n\n\n\n<p>Um corpo feminino que se tornou estranho, vivido com grande desconforto, principalmente na sua manifesta\u00e7\u00e3o exterior, perante o olhar dos outros (ancas, seios), que s\u00f3 encontrou al\u00edvio quando descobriu um nome para si nas redes sociais: sou transg\u00e9nero.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando lhe pergunto, em resposta ao seu desejo de tomar hormonas masculinas, se se sente como um rapaz, ela nega: \u00e9 contra o sistema bin\u00e1rio. E se ela quisesse um p\u00e9nis, responde que n\u00e3o gosta de sexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que ver-se ao espelho, n\u00e3o suporta a ideia de que os outros a vejam como uma mulher, por isso inventou um nome para si \u2014 F\u00e9nix (curiosamente, um nome que n\u00e3o \u00e9 nem feminino nem masculino, uma figura mitol\u00f3gica que renasce das cinzas) \u2014 e pede para ser tratada com pronomes masculinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se, na inf\u00e2ncia, o seu corpo era vivido com tranquilidade e prazer, as suas rela\u00e7\u00f5es com os outros eram marcadas por sentimentos de estranheza: sempre muito t\u00edmida no contacto com pessoas que n\u00e3o conhecia, escondia-se quando os pais recebiam novos amigos, manifestando uma &#8220;ang\u00fastia do estranho&#8221;. Brincava com brinquedos t\u00edpicos de ambos os sexos, mas, como diz, utilizava-os de uma forma diferente dos outros, como se tamb\u00e9m fossem vivenciados como objetos estranhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sugeri psicoterapia para a ajudar a compreender o seu desconforto com o seu corpo feminino e a perceber quem ela realmente era. Mas Filipa\/Phoenix sempre se mostrou muito relutante em questionar a sua identidade auto-identificada como \u2018trans\u2019, bem como a solu\u00e7\u00e3o baseada na convers\u00e3o de g\u00e9nero masculino. Mant\u00e9m-se firme no seu desejo de ter um relacionamento que lhe permita iniciar um processo de &#8220;transi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Uma sociedade trans?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios anos que me interesso pela quest\u00e3o dos problemas de g\u00e9nero, ou ang\u00fastia de g\u00e9nero, n\u00e3o s\u00f3 por raz\u00f5es cl\u00ednicas (estes casos raramente requerem ajuda cl\u00ednica), mas principalmente porque me deixa perplexo e curioso o facto de, como diz David Bell (2021), ser uma manifesta\u00e7\u00e3o (um sintoma n\u00e3o s\u00f3 individual, mas tamb\u00e9m social) que est\u00e1 a ganhar for\u00e7a no s\u00e9culo XXI. Porque est\u00e1 imbu\u00edda de resist\u00eancia, rigidez e concretude, que se manifesta n\u00e3o s\u00f3 na pr\u00e1tica cl\u00ednica de pessoas que expressam sofrimento\/rejei\u00e7\u00e3o do seu sexo biol\u00f3gico (disforia de g\u00e9nero) e necessidade de transforma\u00e7\u00e3o literal do seu corpo biol\u00f3gico (transg\u00e9nero), mas tamb\u00e9m na pr\u00f3pria sociedade, que insiste num olhar normalizador, se recusa a questionar e condena como transf\u00f3bicos aqueles que o tentam fazer. Uma sociedade vigilante e condenadora (uma sociedade do Superego), mas tamb\u00e9m fabricante de r\u00f3tulos, em vez de tolerante e reflexiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Como defende David Bell (2021), vivemos numa sociedade que parece ter passado de uma sociedade progressivamente mais tolerante e fluida (em termos de ra\u00e7a, apar\u00eancia, procura de igualdade de direitos e express\u00e3o de g\u00e9nero) para uma sociedade r\u00edgida, concreta e intolerante ao pensamento. Diria que pass\u00e1mos de uma sociedade repressiva na \u00e9poca do nascimento da psican\u00e1lise para uma sociedade normalizadora e politicamente correta nos dias de hoje. Como diz a psicanalista italiana Simona Argentiere (2009), as quest\u00f5es de g\u00e9nero tornaram-se uma batalha pol\u00edtica, e cabe-nos a n\u00f3s, psicanalistas, recuperar o v\u00e9rtice psicanal\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela minha parte, procurei compreender com as ferramentas ao meu dispor: o meu pensamento psicanal\u00edtico e os dados da minha pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesta busca de sentido que, em 2019, participei no primeiro encontro da IPA (Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Internacional) sobre quest\u00f5es de g\u00e9nero, em Bruxelas &#8211; &#8220;Perspetivas psicanal\u00edticas contempor\u00e2neas sobre a diversidade de g\u00e9neros e sexualidades&#8221; &#8211; mas rapidamente compreendi que, mais do que um lugar de questionamento e compreens\u00e3o psicanal\u00edtica, era uma luta pol\u00edtica para normalizar as diferentes express\u00f5es da sexualidade contempor\u00e2nea. As perguntas do p\u00fablico (psicanalistas) sobre as apresenta\u00e7\u00f5es foram tomadas como manifesta\u00e7\u00f5es de transfobia\u2026.<\/p>\n\n\n\n<p>Este encontro de 2019 deixou-me tamb\u00e9m a recorda\u00e7\u00e3o de que os casos apresentados (M para F) eram de rapazes impedidos de expressar o seu lado feminino na inf\u00e2ncia (ex.: vestir-se com as roupas da m\u00e3e) e a observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica de que nos \u00faltimos anos, no sentido inverso, tem havido um aumento de casos de redesigna\u00e7\u00e3o sexual (F para M), o que me fez questionar como \u00e9 que isto poderia ser compreendido numa sociedade que cada vez mais &#8220;permite&#8221; \u00e0s \u200b\u200b\u200b\u200bmulheres expressarem o seu lado masculino &#8211; vestir cal\u00e7as, ter o cabelo curto, ser empreendedora e estar em posi\u00e7\u00f5es de poder, enquanto crian\u00e7as, ser Tom Boys e bons jogadores de futebol, como foi o meu caso\u2026 Rapidamente compreendi que as quest\u00f5es relacionadas com a bissexualidade ps\u00edquica n\u00e3o conseguiam, por si s\u00f3, explicar o problema da disforia de g\u00e9nero.<\/p>\n\n\n\n<ol start=\"4\" class=\"wp-block-list\">\n<li>O Congresso da OPAS em Paris<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Alguns anos mais tarde, em junho de 2024, o destino, ou a sorte, levou-me a Paris, onde pude participar numa grande confer\u00eancia multidisciplinar &#8211; &#8220;A crian\u00e7a no centro das mudan\u00e7as antropol\u00f3gicas: pode a crian\u00e7a ainda crescer?&#8221; &#8211; organizado pelo Observat\u00f3rio da Pequena Sereia (OPS) e pela Sociedade de Medicina Baseada na Evid\u00eancia (SEGM). Tratou-se de um simp\u00f3sio internacional realizado no Palais du Luxembourg, com psicanalistas, psiquiatras, m\u00e9dicos, geneticistas, bi\u00f3logos, fil\u00f3sofos, soci\u00f3logos, antrop\u00f3logos e juristas &#8211; da Europa, Estados Unidos, Austr\u00e1lia, Canad\u00e1 e Nova Zel\u00e2ndia &#8211; que se reuniram para discutir, compreender e encontrar solu\u00e7\u00f5es urgentes para o problema do crescimento exponencial da disforia de g\u00e9nero entre os adolescentes de todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este encontro, organizado pelo Observat\u00f3rio da Pequena Sereia, presidido por C\u00e9line Masson, psicanalista e professora universit\u00e1ria, e Caroline Eliacheff, pedopsiquiatra e psicanalista, nasceu da preocupa\u00e7\u00e3o com o aumento maci\u00e7o de novos diagn\u00f3sticos de &#8220;disforia de g\u00e9nero&#8221; e identidade trans entre menores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, uma em cada 14 adolescentes identifica-se como transg\u00e9nero, enquanto que, em v\u00e1rios pa\u00edses, os m\u00e9dicos n\u00e3o t\u00eam qualquer controlo ao prescrever hormonas bloqueadoras da puberdade, com riscos m\u00e9dicos, a jovens que sofrem de disforia de g\u00e9nero, que frequentemente amea\u00e7am cometer suic\u00eddio se os seus desejos n\u00e3o forem atendidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 2023, uma nova lei espanhola permite que os menores passem pela transi\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero sem o consentimento dos pais. O terapeuta, impedido de exercer a sua profiss\u00e3o (explorar, discutir, procurar causas, propor solu\u00e7\u00f5es), \u00e9 obrigado a confirmar o que a pessoa sente e a fornecer-lhe tudo o que esta lhe pedir, sob pena de multa em caso de recusa.<\/p>\n\n\n\n<p>Quais s\u00e3o as transforma\u00e7\u00f5es culturais e sociais respons\u00e1veis \u200b\u200bpor este crescimento exponencial, que conduz a solu\u00e7\u00f5es imediatas e literais, a a\u00e7\u00f5es inquestion\u00e1veis, atrav\u00e9s de bloqueadores da puberdade ou de cirurgias de mudan\u00e7a de sexo, com consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas e m\u00e9dicas (cardiovasculares, cancro, osteoporose, infertilidade)?<\/p>\n\n\n\n<ol start=\"5\" class=\"wp-block-list\">\n<li>Ideologia de g\u00e9nero<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Uma hist\u00f3ria que come\u00e7ou h\u00e1 mais de 10 anos, quando um movimento ativista procurou definir os direitos e os padr\u00f5es de tratamento m\u00e9dico para as pessoas que se identificam como &#8220;transg\u00e9nero&#8221;, pressionando os profissionais de sa\u00fade a adotar as suas recomenda\u00e7\u00f5es para ajudar as crian\u00e7as que se sentem &#8220;trans&#8221; a fazer a sua transi\u00e7\u00e3o social e m\u00e9dica, sem que o seu pedido fosse questionado. O &#8220;Observat\u00f3rio da Pequena Sereia&#8221; surge como um alerta para que os cl\u00ednicos n\u00e3o possam aceitar como realidades cient\u00edficas proposi\u00e7\u00f5es provenientes do ativismo e dos media sociais, como a recente multiplicidade de g\u00e9neros (queer, g\u00e9nero fluido, ag\u00e9nero, xen\u00f3g\u00e9nero, etc.), que levam os adolescentes que sofrem com o seu g\u00e9nero a serem influenciados por esta mediatiza\u00e7\u00e3o enganadora:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 extremamente perigoso, ideologicamente, que o desconforto psicol\u00f3gico encontre uma solu\u00e7\u00e3o hormonal e cir\u00fargica, que uma altera\u00e7\u00e3o corporal seja um rem\u00e9dio para um questionamento de identidade, no caso de pessoas em pleno desenvolvimento f\u00edsico e psicol\u00f3gico, como \u00e9 o caso da adolesc\u00eancia.&#8221; (Masson, C., 2024, p.2)<\/p>\n\n\n\n<p>E uma primeira quest\u00e3o me veio \u00e0 mente:<\/p>\n\n\n\n<p>De que modo o aumento s\u00fabito das exig\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o por parte de uma popula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, os jovens adolescentes, constitui a express\u00e3o de um sofrimento intrinsecamente ligado \u00e0s mudan\u00e7as psicol\u00f3gicas internas espec\u00edficas da puberdade, ligadas a um contexto social espec\u00edfico?<\/p>\n\n\n\n<p>O diagn\u00f3stico de &#8220;disforia de g\u00e9nero&#8221; (DSM IV) surgiu em 2015 para substituir o &#8220;transexualismo&#8221;, considerado discriminat\u00f3rio, e descreve o sofrimento de uma pessoa que se identifica como transg\u00e9nero ao expressar um sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o ou incongru\u00eancia entre o seu &#8220;sexo atribu\u00eddo&#8221; e a sua &#8220;identidade de g\u00e9nero&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o termo &#8220;sexo atribu\u00eddo&#8221; \u00e9 completamente absurdo. O sexo \u00e9 uma realidade biol\u00f3gica, n\u00e3o uma escolha. Os bi\u00f3logos sempre reconheceram que existem apenas dois sexos: o masculino e o feminino. N\u00e3o podemos falar de &#8220;sexo atribu\u00eddo \u00e0 nascen\u00e7a&#8221;, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de julgamento. Gra\u00e7as aos g\u00e2metas, aos cromossomas e \u00e0s caracter\u00edsticas sexuais prim\u00e1rias e secund\u00e1rias, na maioria dos casos \u00e9 imposs\u00edvel cometer um erro no nascimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que &#8220;o sexo \u00e9 um espectro&#8221; ou que as crian\u00e7as podem escolher o sexo que preferem \u00e9 pura ideologia, uma fic\u00e7\u00e3o em que alguns m\u00e9dicos acreditaram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m o que defendem Claudine Junien e Peggy Sastre, respetivamente professoras de gen\u00e9tica m\u00e9dica e filosofia da ci\u00eancia, no seu artigo &#8220;Nasce-se mulher, n\u00e3o se torna mulher&#8221; (2017), invertendo a c\u00e9lebre frase de Simone de Beauvoir &#8220;N\u00e3o se nasce mulher, n\u00e3o se torna mulher&#8221;. Geneticamente, a semelhan\u00e7a entre dois homens e duas mulheres \u00e9 de 99,9%, mas entre um homem e uma mulher \u00e9 de apenas 98,3%, menos do que a semelhan\u00e7a entre um humano e um chimpanz\u00e9 do mesmo sexo! Cada c\u00e9lula do embri\u00e3o cont\u00e9m 23 pares de cromossomas e tem um sexo determinado na conce\u00e7\u00e3o pelo par de cromossomas sexuais. Toda a gente sabe disso, mas continuamos a achar que as diferen\u00e7as s\u00e3o &#8220;hormonais&#8221; ou ligadas ao &#8220;g\u00e9nero&#8221; ditado pelo ambiente. (Junien e Sastre, 2017)<\/p>\n\n\n\n<p>Na confer\u00eancia de Paris, a riqueza da discuss\u00e3o interdisciplinar destinada a compreender este s\u00fabito aumento da express\u00e3o sintom\u00e1tica estimulou a minha livre associa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>(1) A ang\u00fastia da puberdade \u00e9 leg\u00edtima e normal, todos sabemos como a quest\u00e3o adolescente come\u00e7a na puberdade com a transforma\u00e7\u00e3o do corpo, que p\u00f5e a nu a identidade sexual com o surgimento de caracter\u00edsticas sexuais secund\u00e1rias, e a necessidade de se livrar da omnipot\u00eancia da bissexualidade infantil (Lamoureux, 2024). E, ao mesmo tempo, um corpo que se transforma subitamente, tornando-se num corpo estranho que ter\u00e1 de ser integrado na identidade do jovem. Para muitos, esta \u00e9 uma ansiedade normal da puberdade, um conflito entre o &#8220;eu&#8221; e o corpo estranho, para o qual a medicina do s\u00e9culo XXI encontrar\u00e1 em breve uma solu\u00e7\u00e3o. Uma ansiedade de identidade puberal, que n\u00e3o teve tempo de se desenvolver e para a qual as redes sociais, impulsionadas pela internet e pelas redes sociais, rapidamente encontraram um nome: &#8220;Se se sente mal com o seu corpo, \u00e9 porque \u00e9 do sexo errado&#8221;. O desamparo da inf\u00e2ncia ressurge na adolesc\u00eancia sem tempo para a elabora\u00e7\u00e3o, porque afinal, &#8220;posso escolher o meu g\u00e9nero, o meu corpo e, ao mesmo tempo, manter a minha bissexualidade da inf\u00e2ncia&#8221;. O lobby trans refor\u00e7a esta omnipot\u00eancia ao falar da possibilidade de autodetermina\u00e7\u00e3o do sexo, o que implica simultaneamente negar a origem e a filia\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 esta ent\u00e3o uma forma tendenciosa de vencer a luta dos adolescentes pela autonomia parental e pela separa\u00e7\u00e3o dos objectos da inf\u00e2ncia?<\/p>\n\n\n\n<p>(2) Outros mencionaram a influ\u00eancia da omnipot\u00eancia social actual, tudo ao clique de um bot\u00e3o, ligando-a \u00e0 ideia de omnipot\u00eancia contra a finitude: bloquear a puberdade seria recusar-se a crescer, recusar-se a ser adulto, numa luta contra a morte. E lembrei-me da moda actual de tantas raparigas p\u00faberes, preocupadas com os cuidados com a pele, o consumo aditivo de cremes e outros produtos faciais, n\u00e3o para melhorar a apar\u00eancia ou esconder manchas, mas para evitar rugas no futuro\u2026 Eu pr\u00f3pria, m\u00e3e de duas adolescentes que tamb\u00e9m correm o risco de serem envenenadas por esta moda, olho para a minha adolesc\u00eancia e lembro-me de quanto, pelo contr\u00e1rio, quer\u00edamos crescer depressa, e de quantas vezes menti sobre a minha idade fingindo ser mais velha\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>(3) Outros ainda enfatizaram o fracasso do pai, num mundo que estava a deixar a sua forma piramidal para se tornar horizontal &#8211; toda a verticalidade e toda a assimetria se tornaram insuport\u00e1veis. O conflito geracional deixou de ser uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o anterior e passou a ser uma rejei\u00e7\u00e3o da mesma. &#8220;Nativos digitais&#8221; convencidos de que n\u00e3o t\u00eam mais nada a aprender com os mais velhos, uma vez que todo o conhecimento est\u00e1 \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique na internet, confundindo informa\u00e7\u00e3o desproporcional com conhecimento, e conhecimento com sabedoria. Mas tamb\u00e9m, o fracasso do pai, numa sociedade que j\u00e1 n\u00e3o estabelece proibi\u00e7\u00f5es e j\u00e1 n\u00e3o imp\u00f5e os limites da realidade. A realidade torna-se individual e modific\u00e1vel \u00e0 medida que a vontade, o desejo e a subjetividade a substituem, consequ\u00eancia de uma sociedade individualista, mas tamb\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es nas redes sociais, que, ao contr\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es presenciais, n\u00e3o t\u00eam de ser negociadas nem se encontram compromissos. N\u00e3o, nas redes sociais, os amigos irritantes podem ser apagados e rapidamente substitu\u00eddos por outros.<\/p>\n\n\n\n<p>De um modo geral, tem havido um protesto contra esta ideologia social, para a qual os direitos das crian\u00e7as significam agora que podem fazer o que quiserem com o seu corpo. N\u00e3o se podem prostituir, mas podem mudar os seus corpos!<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como no meu pa\u00eds, s\u00f3 se pode votar aos 18 anos, mas pode-se alterar o estado civil aos 16\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Uma crian\u00e7a abandonada \u00e0 sua sorte, obrigada a autodeterminar-se (escolher o seu g\u00e9nero), impedida de crescer (e de se diferenciar) por esbarrar em limites dif\u00edceis de ultrapassar, um adolescente sem bases para construir a sua identidade. Uma casa sem paredes n\u00e3o pode crescer\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Estaria Freud enganado quando escreveu em &#8220;O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; (1930) que &#8220;o indiv\u00edduo deve gerir o conflito entre os seus impulsos individuais e as exig\u00eancias da sociedade&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas porqu\u00ea adolescentes?<\/p>\n\n\n\n<p>Os psicanalistas C\u00e9line Masson, Caroline Eliacheff, Thierry Delcourt, a psic\u00f3loga Pam\u00e9la Grignon e o linguista Jean Szlamowicz preferem chamar a esta disforia de g\u00e9nero nos adolescentes ansiedade sexual puberal ou ASP, propondo uma nova nosologia (Masson, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p>A disforia de g\u00e9nero t\u00edpica \u00e9 rara e ocorre, geralmente, em rapazes que, desde muito jovens (3 ou 4 anos), sentem que s\u00e3o raparigas. Um sentimento muito forte, que n\u00e3o se altera \u00e0 medida que crescemos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ansiedade de g\u00e9nero na puberdade \u00e9 muito diferente: afecta principalmente as raparigas na puberdade (12 a 13 anos), o pedido de mudan\u00e7a de g\u00e9nero \u00e9 relativamente repentino (&#8220;Disforia de G\u00e9nero de In\u00edcio R\u00e1pido&#8221;) e o n\u00famero de casos aumentou drasticamente nos \u00faltimos dez anos. Caracteriza-se por uma rejei\u00e7\u00e3o maci\u00e7a e persistente das altera\u00e7\u00f5es corporais, que ocorre com o aparecimento de caracter\u00edsticas sexuais secund\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvir esta nova defini\u00e7\u00e3o leva-me numa viagem de 25 anos no tempo para pensar na &#8220;ansiedade de sexualidade puberal&#8221; que tenho observado em tantos adolescentes que sofrem de anorexia nervosa\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a sua express\u00e3o sintom\u00e1tica, que tamb\u00e9m se manifesta com o in\u00edcio da puberdade, tenha contornos completamente distintos da disforia de g\u00e9nero, a adolescente anor\u00e9ctica procura a magreza como forma de evitar as formas femininas e a genitalidade, mantendo um lugar infantil.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria conta: \u201cQuando chegou a minha menstrua\u00e7\u00e3o e comecei a ter mamas, senti que n\u00e3o gostava de mim nem do meu corpo, e decidi perder peso. Olhei para o espelho e n\u00e3o gostei da minha apar\u00eancia. Desde os 14 anos que me achava feia, uma adolescente horr\u00edvel, achava que as outras eram muito mais bonitas do que eu.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E questionei-me se a disforia de g\u00e9nero nos adolescentes n\u00e3o ser\u00e1 mais uma express\u00e3o do mesmo problema: a incapacidade de completar o processo da adolesc\u00eancia, a rejei\u00e7\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o materno-feminina pela rejei\u00e7\u00e3o do corpo feminino, pela dificuldade em elaborar a separa\u00e7\u00e3o dos objetos da inf\u00e2ncia, numa sociedade que se alterou nos \u00faltimos anos, com o aparecimento do mundo digital, os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e m\u00e9dicos, e a omnipot\u00eancia a eles associada?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma segunda quest\u00e3o me veio \u00e0 mente:<\/p>\n\n\n\n<p>Na &#8220;ansiedade de sexua\u00e7\u00e3o puberal&#8221; do adolescente, somos confrontados com uma nova entidade cl\u00ednica, criada pela sociedade do s\u00e9culo XXI, ou com outro nome, criado pela ideologia de g\u00e9nero, para um problema que j\u00e1 existia?<\/p>\n\n\n\n<p>6.\u00ba Ansiedade sexual puberal na anorexia?<\/p>\n\n\n\n<p>Mais diagn\u00f3sticos criam mais pacientes\u2026, como vemos no atual crescimento do autismo ou hiperatividade nas crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas o autismo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo&#8221;, disse-me recentemente um colega com 30 anos de experi\u00eancia a trabalhar com crian\u00e7as autistas. &#8220;Antes, era uma insufici\u00eancia social; agora, \u00e9 uma esp\u00e9cie de falta de interesse pelos outros.&#8221; O mesmo colega contou-me: &#8220;Entrei na sala de espera com m\u00e3es de beb\u00e9s normais (prematuros) dos 6 meses aos 3 anos. Para passar o tempo, um ecr\u00e3 exibia um v\u00eddeo sobre a import\u00e2ncia da brincadeira infantil. Mas todas as m\u00e3es, sem exce\u00e7\u00e3o, estavam a olhar para os seus telem\u00f3veis, enquanto os beb\u00e9s, nos seus ber\u00e7os, olhavam para o vazio.&#8221; Aproxima-se das m\u00e3es e diz, em tom de brincadeira: &#8220;Ent\u00e3o, ningu\u00e9m fala com beb\u00e9s?&#8221; Mas nenhuma m\u00e3e ficou chateada, culpada ou surpreendida, continuaram a fazer a mesma coisa, a olhar para o telem\u00f3vel\u2026 A minha colega aproxima-se ent\u00e3o dos ber\u00e7os e v\u00ea os beb\u00e9s a olhar para ela, \u00e1vidos de aten\u00e7\u00e3o, exibindo um sorriso preocupado, que quase lhe traz l\u00e1grimas aos olhos, perante estes beb\u00e9s abandonados pelas m\u00e3es\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos a criar adolescentes que tiveram pouco contacto com os pais? Quem precisa do olhar dos outros para o ajudar a negar este feminino insuport\u00e1vel?<\/p>\n\n\n\n<p>Um corpo que permanece estranho na aus\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es sociais identificadoras, num mundo virtual desencarnado?<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que as diferen\u00e7as entre disforia de g\u00e9nero e anorexia come\u00e7aram a ficar claras para mim\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da disforia de g\u00e9nero, na anorexia, este problema de recusar o materno, de lutar contra o corpo feminino, como forma de diferenciar o materno, \u00e9 inconsciente e mascarado por uma necessidade de magreza. Na disforia de g\u00e9nero (ou ansiedade sexual puberal), ela \u00e9 real e exigente. Recusa de nomea\u00e7\u00e3o e de nomea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A anor\u00e9ctica procura controlar os impulsos de depend\u00eancia\/voracidade, numa luta contra a depend\u00eancia do objecto materno, da magreza e do corpo da crian\u00e7a, com benef\u00edcios secund\u00e1rios para manter a depend\u00eancia. Na din\u00e2mica terap\u00eautica Transfer\u00eancia-Contratransfer\u00eancia, encontramos esta mesma oscila\u00e7\u00e3o entre aproxima\u00e7\u00e3o\/distanciamento, apoiada na racionaliza\u00e7\u00e3o e nas defesas obsessivas, e o foco do problema na alimenta\u00e7\u00e3o surge como um factor protector.<\/p>\n\n\n\n<p>O adolescente que sofre de &#8220;ansiedade sexual puberal&#8221; exige uma passagem literal \u00e0 ac\u00e7\u00e3o, a separa\u00e7\u00e3o do objecto materno \u00e9 ainda mais radical. Muitas deixam de falar com as m\u00e3es, mudam-se e juntam-se a grupos TRANS. No movimento transfer\u00eancia-contratransfer\u00eancia, esta recusa do analista apresenta-se como uma impossibilidade de compreens\u00e3o dos significados, uma oposi\u00e7\u00e3o radical a qualquer questionamento (sentido como transfobia, ou incapacidade de compreens\u00e3o), uma desvaloriza\u00e7\u00e3o do terapeuta e do seu saber, um cancelamento da hierarquia simb\u00f3lica, t\u00e3o grande parece a fragilidade da identidade\u2026 O literal instala-se numa confus\u00e3o entre signo e s\u00edmbolo: &#8220;se n\u00e3o gosto dos meus seios, ou das minhas ancas, \u00e9 porque tenho de os tirar; se me sinto estranho com as minhas caracter\u00edsticas femininas, \u00e9 porque sou masculino&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a bissexualidade ps\u00edquica, nem para o simb\u00f3lico.<\/p>\n\n\n\n<p>Na anorexia, surge a quest\u00e3o narcisista: &#8220;O meu corpo feminino \u00e9 feio, por isso ningu\u00e9m me ama&#8221;. O adjetivo (feio\/bonito) \u00e9 acrescentado ao corpo, referindo-se \u00e0 inadequa\u00e7\u00e3o do objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Na disforia de g\u00e9nero, coloca-se a quest\u00e3o da identidade: &#8220;Este n\u00e3o \u00e9 o meu corpo&#8221;, deve o corpo estranho, imposs\u00edvel de transformar, ser removido, remetendo para a aus\u00eancia do objeto?<\/p>\n\n\n\n<p>Na anorexia, \u00e9 uma distor\u00e7\u00e3o subjetiva da pr\u00f3pria vis\u00e3o (um corpo magro que ela considera gordo). Todos a v\u00eaem como magra, mas ela insiste que \u00e9 gorda. A identifica\u00e7\u00e3o projetiva surge da distor\u00e7\u00e3o da imagem corporal do corpo magro de algu\u00e9m. O corpo gordo torna-se ent\u00e3o o resultado da nega\u00e7\u00e3o e da projec\u00e7\u00e3o de uma voracidade emocional, marca da depend\u00eancia infantil dos objectos prim\u00e1rios e da idealiza\u00e7\u00e3o de um corpo magro, sem necessidade de alimento\/outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Na disforia de g\u00e9nero, \u00e9 a distor\u00e7\u00e3o imposta ao olhar do outro, \u00e9 o olhar do outro que deve coincidir com o seu, atestando uma diferen\u00e7a mais radical e insuport\u00e1vel e a necessidade de separa\u00e7\u00e3o: o nome, o g\u00e9nero no olhar do outro deve confirmar a sua subjetividade, mesmo que para isso seja necess\u00e1rio mudar a realidade (omnipot\u00eancia). A exterioridade \u2013 a realidade do sexo e a subjetividade do outro \u2013 \u00e9 anulada, e a sua subjetividade (desejo, idealiza\u00e7\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o da realidade) \u00e9 imposta: &#8220;Ent\u00e3o eu n\u00e3o me sinto mulher, tu n\u00e3o me podes ver como mulher&#8221;. Surge o \u00f3dio ao feminino, a recusa do simb\u00f3lico e o cancelamento da diferen\u00e7a \u2014 &#8220;deves ver-me como eu me quero ver&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<ol start=\"7\" class=\"wp-block-list\">\n<li>O corpo sofredor como espelho social<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Se no s\u00e9culo XIX-XX foi o corpo simb\u00f3lico da patologia hist\u00e9rica, a proibi\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o da sexualidade que levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Psican\u00e1lise, na d\u00e9cada de 1980, o soci\u00f3logo Lipovetsky (1983) fala de uma sociedade ocidental narcisista, ligada \u00e0 abund\u00e2ncia material e \u00e0 import\u00e2ncia do consumo, mas tamb\u00e9m ao sucesso \u2014 &#8220;valemos mais pelo que temos do que pelo que somos&#8221; \u2014, a sociedade moral tornara-se uma sociedade de valores, de competi\u00e7\u00e3o e de individualismo, terreno f\u00e9rtil para o surgimento de patologias narcisistas e borderline, anorexia e outras patologias aditivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria diz: &#8220;N\u00e3o sei o que \u00e9 ser mulher\u2026 uma pessoa magra\u2026 N\u00e3o sei muito bem. Quem aparece na televis\u00e3o \u00e9 todo magro, as modelos, queria parecer-me com elas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo tornou-se um objeto de valor narcisista, numa sociedade que valoriza a independ\u00eancia e o sucesso, n\u00e3o deixando espa\u00e7o para a vulnerabilidade. Ser magra \u00e9 ser uma mulher independente e bem-sucedida que tem controlo sobre a sua fome\/desejo oral.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde estamos hoje?<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XXI, surge um espa\u00e7o virtual desencarnado: um ecr\u00e3 que cria um espa\u00e7o bidimensional e omnipotente em vez de um espa\u00e7o interm\u00e9dio e simb\u00f3lico, um terreno f\u00e9rtil para o surgimento de um corpo literal e omnipotente.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo como espelho do paradoxo deste s\u00e9culo XXI, que privilegia a liberdade\/vontade do sujeito, onde o corpo e a identidade se tornam descart\u00e1veis \u200b\u200b\u200b\u200be modific\u00e1veis \u200b\u200b\u200b\u200b\u2014 seja a cor dos cabelos, dos seios, das rugas, ou mesmo a escolha do sexo e da cor dos olhos do beb\u00e9 nas novas t\u00e9cnicas reprodutivas, seja o sexo biol\u00f3gico \u2014, contrastando fortemente com a falta de liberdade de pensamento que predomina neste espa\u00e7o TRANS, onde tentar compreender \u00e9 recusar e condenar, ser chamado de transf\u00f3bico, num universo paran\u00f3ico e inflex\u00edvel, e muito bin\u00e1rio: &#8220;ou est\u00e1s comigo ou contra mim&#8221;. A binariedade de g\u00e9nero \u00e9 rejeitada, mas o pensamento \u00e9 bin\u00e1rio, o que talvez torne o trabalho psicol\u00f3gico do adolescente muito mais dif\u00edcil\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Termino este artigo com uma frase de um livro muito importante publicado este ano &#8211; The Anxious Generation: How the Great Childhood Revival Causes an Epidemic of Mental Illness (Haidt, Jonathan, 2024) &#8211; que atesta e compreende o aumento exponencial da depress\u00e3o e da ansiedade entre os jovens de 2010 a 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esta \u00e9 uma profunda transforma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia e de rela\u00e7\u00f5es humanas que ocorreu para os adolescentes americanos entre 2010 e 2015. \u00c9 o nascimento da inf\u00e2ncia do telefone. Marca o fim definitivo da inf\u00e2ncia l\u00fadica.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-kjfok415\">Argenti\u00e9ri, S. (2009). Travestismo, Transexualismo, transg\u00e9neros: identifica\u00e7\u00e3o e imita\u00e7\u00e3o. In <em>Jornal de Psican\u00e1lise, 42 (77): 167-185.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-er02g420\">Bell, D (2021). <em>Do Not Adjust Your Set. Psychoanalytic Reflections on the Explosion in Incidence of Gender Dysphoria in Children and Adolescents<\/em>. FEP, Bulletin 75, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-19bm8426\">Freud, S (1930). O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o. <em>In: Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud &#8211; Vol. XX, p. 73 &#8211; I48<\/em>. Rio de Janeiro: Imago<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1qxh8432\">Masson, C. (2024) et al.. L\u2019Angoisse de Sexuation Pubertaire \u2013 ASP, Une nouvelle proposition Clinique.<em>&nbsp;Revue Psychiatrie Francaise en ligne (2024).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ml7sg437\">Junien, C.; Sastre, P. (2017): <em>On nait femme, on ne devient pas<\/em>. Journal Le Monde, (April 11th)<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cqy7l7866\">Lipovetsky (1983). <em>A Era do Vazio. Ensaios sobre o individualismo contempor\u00e2neo<\/em>. Edi\u00e7\u00f5es 70, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3homy6002\">Lamoureux, C. (2024). <em>L\u2019expression de la souffrance chez les adolescentes en demande de transition de genre<\/em>. M\u00e9moire de Recherche en vue de l\u2019obtention du Dipl\u00f4me de Psychologue: \u00c9cole des Psychologues Praticiens &#8211; Institut Catholique de Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>* <a href=\"https:\/\/lnkd.in\/draqS7Xq\">https:\/\/lnkd.in\/draqS7Xq<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rita MartaSociedade Portuguesa de Psican\u00e1liseMensana \u2013 Sa\u00fade Mental (www.mensana-mentalhealth.com) Resumo Em junho de 2024, um grupo de especialistas de todo o mundo \u2014 psicanalistas, psiquiatras, geneticistas, bi\u00f3logos, fil\u00f3sofos, soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos \u2014 reuniu-se em Paris para discutir e encontrar solu\u00e7\u00f5es urgentes para o problema do crescimento exponencial e global da disforia de g\u00e9nero entre adolescentes. 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